O montanhismo: expressão de re-integração?
O ser humano não possui apenas necessidades fundamentais que devem ser atendidas. Ele é um ser de participação e de criação.
Historiadores, geólogos e cientistas no mundo inteiro, já desvendaram e revelaram algumas nuances do impacto que a natureza exerce em nossa existência. A montanha, representando o ambiente natural, por si, já evidencia grandes impactos na sociedade desde há muito séculos atrás.
Antigamente, as montanhas eram consideradas elementos indomáveis tanto do ponto de vista agrícola tanto pelo imaginário social que predominava em épocas remotas, pois eram tidas como os produtos mais selvagens da natureza. No século XVIII, arriscar a vida escalando montanhas era considerado algo totalmente insano.
Porém, com o passar do tempo, os indivíduos começaram a buscar as montanhas por motivos que iam além da simples necessidade de subsistência, neste momento percebe-se o surgimento da noção de esplendor da paisagem montanhosa. Mesmo assim, ainda em meados do século XIX, o montanhismo em si, passou a existir induzido com um compromisso com a ciência, ou seja, escaladas seriam realizadas sempre com um intuito científico, a fim de realizar algum tipo de experimento.
A geologia foi a força motriz do montanhismo até meados do século XX, "as primeiras três expedições ao Everest (1921,1922 e 1924) foram financiadas, parcialmente, como expedições científicas cujo objetivo era buscar conhecimento geológico (e botânico) na região do monte Everest". A investigação científica e a geologia além de ajudarem na aproximação e deslocamento de pessoas para as montanhas, propiciou também um desgastamento da visão de mundo renascentista segundo a qual o homem é a medida de todas as coisas. Em outras palavras, isto significou que, os seres humanos não eram mais nem menos importantes do que qualquer outra aglomeração de matéria no universo. Encaradas no amplo contexto geológico, ficou constatada que, as pedras são tão vulneráveis a alterações quanto qualquer outra substância.(Macfarlane, 2005)
É interessante perceber que a trajetória histórica do montanhismo com suas transformações acompanha também a mudança de um pensamento cartesiano/reducionista (séculos XVI e XVII) para um pensamento sistêmico/holístico (início do século XX). Não é que se extinguiu o velho paradigma, mas, houve esta mudança que provocou uma profunda revolução na história do pensamento científico ocidental e teve a contribuição das descobertas no campo da física quântica, da psicologia da gestalt, da biologia e da ecologia. Neste novo paradigma, descarta-se a centralização no ser humano e reconhece-se o valor inerente da vida não-humana. Além disso, reconhece que todos os seres vivos são membros de comunidades ecológicas ligadas uma às outras numa rede de interdependências.
Tudo interage, portanto, tudo possui certo nível de vida e de espírito. As rochas mais ancestrais analisadas se encontram sob a lógica da interação e da complexidade. Elas são mais que sua composição físico-química. Elas estão em contato com a atmosfera e influenciam a hidrosfera; interagem com o clima e assim se relacionam com a biosfera. Como dizem os físicos quânticos e o próprio Einstein: "as grandes concentrações de energia são captadas na forma de matéria e as pequenas em forma de simples energia e de campos de energia". Tudo, portanto, é energia em diversos graus de concentração e estabilização em complexos sistemas de relações, onde tudo está interconectado com tudo, originando a "sinfonia universal", as montanhas, os microorganismos, os animais, os seres humanos. (Boff, 2004)
Assim, estamos falando de ecologia profunda, uma forte corrente de pensamento "ambientalista" baseada numa ética que propõe uma relação de identificação mais profunda entre o ser humano e a natureza externa. A expressão ecologia profunda foi criada durante a década de 1970 pelo filósofo norueguês Arne Naess, em oposição ao que ele chama de "ecologia superficial" isto é, a visão convencional segundo a qual o meio ambiente deve ser preservado apenas por causa da sua importância para o ser humano.
Antes que uma filosofia completamente concebida, a ecologia profunda é um movimento social com diversas formas de se manifestar (há desde aqueles que reivindicam essa forma de pensar mediante um comportamento individual contemplativo da natureza, até grupos consolidados que têm desenvolvido diferentes tipos de mobilizações). O ecólogo norte-americano Aldo Leopold (1887-1948), foi um dos antecedentes mais importantes da ecologia profunda, sua proposta ia contra considerar a natureza somente como recurso natural, para ser considerada como espaço de vida.
E onde entra o montanhismo nesta estória? Que é que tem a ver com a ecologia profunda?
Esta atitude de considerar a natureza como um espaço de vida, também fez parte do processo histórico da prática do montanhismo, tido anteriormente como fator de exploração agrícola (recurso natural), investigação científica, contemplação da natureza, entre outros fatores que auxiliaram na aproximação de pessoas às montanhas, foi ao longo do tempo, se estruturando em atividades de lazer e desportivas, com comunidades de pessoas, organizadas em grupos ou não, que no geral, levam o título de esportistas.
Montanhistas não são apenas esportistas ou pessoas com interesses comerciais, ou pesquisadores ou aqueles que simplesmente estão exercendo um lazer. Existe um outro âmbito do montanhismo, um aspecto que tem mostrado uma real expressão de vida (podemos ver isto em relatos de montanhistas), um movimento social que atua em torno deste ambiente natural, que são as montanhas, onde valores são introjetados e manifestados, códigos de ética ambiental são "formulados", onde o desapego á uma cultura capitalista é percebida. Sentimentos diversos, formação de personalidade, formação de caráter, de relações sociais, crescimento emocional e espiritual está intimamente ligado à prática do montanhismo entre seus participantes, e que são passados às futuras gerações. Sem dúvida, é uma atividade essencialmente mobilizadora. Acredito que esta mobilização está ligada diretamente ao contexto ambiental no qual o montanhista está inserido. Com a sua ligação com a natureza.
Novos campos da psicologia podem explicar um pouco disto. Existe um vínculo entre a psicologia e ecologia, que é estabelecido pela concepção de eu ecológico e que em sido recentemente explorado por vários autores como Joanna Macy que escreve a respeito do "reverdecimento do eu", o filósofo Warwick Fox cunhou o termo "ecologia transpessoal; e o historiador cultural Theodore Roszak utiliza o termo" ecopsicologia "para expressar a conexão profunda entre esses dois campos, os quais até muito recentemente , eram completamente separados. (Capra,1996)
Assim como na ecologia profunda, ocorre também no montanhismo a percepção prática de que o homem é parte "inseparável", física, psicológica e espiritualmente, do ambiente em que vive. O montanhista está em perfeita integração com o ambiente natural, pois não há hierarquias (o homem não é mais nem menos que a montanha ou vice-versa), há um processo de interdependência contínua, ambos fazem parte de uma mesma rede de ligações. A diferença consiste em sermos complexamente racionais.
O sentimento de comunhão com a natureza é um dos mais elevados de que o ser humano é capaz, é algo que não é novo, fez parte do passado (ancestrais) e deve fazer parte do nosso futuro. O convívio direto com a natureza foi e será um fator decisivo para o bem-estar físico e psicológico do ser humano. È reconhecer o interior da nossa unidade com a natureza. O meio ambiente faz, realmente, parte de nós mesmos (o ar que respiramos e a água que compõe 70% do nosso corpo físico). Dele vêm os nutrientes que renovam a cada instante as nossas células. Esta unidade dinâmica não está limitada ao plano material da vida, mas também é psicológica e espiritual, mesmo que alguns de nós não tenhamos plena consciência disso.
O ser humano não possui apenas necessidades fundamentais que devem ser atendidas. Ele é dotado de capacidades que quer exercitar e criativamente mostrar. Ele é um ser de participação e de criação. Vemos que cada cultura organiza seu modo de valorizar, de interpretar e de intervir na natureza, no habitat e na História. A "comunidade" de montanha apresenta sim uma visão de mundo que difere da ética da sociedade dominante de hoje, utilitarista e antropocêntrica. O montanhista consegue exercer e praticar sua criação em conjunto com a natureza. No entanto, se temos a percepção, ou a experiência, ecológica profunda de sermos parte da teia da vida, então estaremos (ou deveríamos estar) inclinados a cuidar de toda a natureza viva.
O que realmente importa é conhecermos a parte no todo e o todo presente nas partes. Quando esta percepção torna-se parte de nossa vivência e consciência cotidiana, aparece um canal de relacionamento transpessoal mais maduro. A ética de pertencimento e de co-responsabilidade é extremamente fundamental nos dias de hoje.
Mas, se você é montanhista e não percebe esta comunicação, esta integração da qual falo, talvez seja interessante parar de olhar pra fora, deixar um pouco o ambiente externo, deixar inclusive as belezas das montanhas de lado... Esqueça tudo isso... E comece a olhar pra dentro de você, pois como diz Leonardo Boff: "A natureza não é algo apenas fora, mas especialmente, dentro do ser humano".
por Mariana Nóbrega Candeia
Escaladora
Psicóloga Clínica Humanista; Formação em Psicossomática; Formação em Gestalterapia Infantil e Pós-Graduanda (latu-senso) em Dinâmica de Grupo. CRP 13/3125
Bibliografia consultada:
- BOFF, L. Ecologia: Grito da Terra, Grito dos Pobres. Rio de janeiro. Sextante, 2004.
- CAPRA, F. A Teia da Vida - Uma Nova compreensão Científica dos Sistemas Vivos. São Paulo. Cultrix, 1996.
- MACFARLANE, R. Montanhas da Mente - História de um Fascínio.Rio de Janeiro. Objetiva , 2005.
|