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Tadeusz
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A Escalada Feminina no Brasil

Em toda a história do montanhismo sempre existiu mulheres escaladoras, basta pegar os antigos livros de relatórios de escalada de Clubes do Rio de Janeiro, principalmente entre as décadas de 50 e 70, para ver vários nomes de mulheres, inclusive como guias.
Pega Leve!
É mais que uma campanha para garantir o bom uso das trilhas e acampamentos limpos. É um programa ...
Equinox
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Paulo Macaco
Figura fácil de ser encontrada na Pedra do Urubu e arredores nos anos 80 e 90, Paulo Bastos, o “Paulo Macaco”, foi um dos principais responsáveis pela importância que aquele bloco às margens da estrada que leva ao Pão de Açúcar veio a ter para o desenvolvimento da escalada esportiva. Na verdade, Paulo teve grande importância para a própria escalada esportiva em seus primórdios, quando ela ainda se encontrava em busca de uma identidade própria, além de ter sido um dos primeiros a se dedicar ao bouldering com um afinco que só nós dias atuais tornou-se corriqueiro.

Primeiro escalador negro a atingir tal patamar de projeção, seu estilo inconfundível – uma rara unanimidade entre os escaladores cariocas daquela época – serviu de fonte de inspiração para muitos, ainda que talvez ninguém tenha atingido tal nível de elegância ao se movimentar na rocha. Estilo que pode ser sintetizado pelo nome por ele escolhido para uma de suas mais marcantes realizações, o bloco Expressão Corporal, hoje graduado em VIIIc mas originalmente um IXa, um dos primeiros do país.

Paulo Macaco também parece ter sido o primeiro escalador carioca a ter patrocinadores que lhe proporcionavam dinheiro suficiente para se manter, ainda que precariamente, além de generosas quantidades de material que ele, com igual generosidade, repartia com os seus amigos da micro-sociedade da Pedra do Urubu, parceiros de farras e de escaladas.

Infelizmente, sua carreira foi interrompida abruptamente pela AIDS, que apesar de hoje estar inteiramente sob controle graças aos modernos tratamentos, deixou uma seqüela dramática: Paulo Macaco, apesar de bem fisicamente, está completamente cego. Mas nem este nem outros rudes golpes pessoais, como a perda, em um mesmo ano (1998), da companheira e do seu único filho aos 13 anos de idade, meses antes de descobrir a sua própria doença, foram capazes de diminuir o entusiasmo com que Paulo se refere à escalada.


Paulo, como e quando você começou a escalar?

No final de 79 um amigo me chamou para fazer uma caminhada ao Perdido do Andaraí, num domingo. Aquilo foi tão impactante para mim que eu voltei a subir a montanha direto, todos os dias, com outros amigos. Depois eu vi um filme sobre o Eiger e disse: “é isso o que eu quero fazer!”. Aí o irmão daquele meu amigo, já em 1980, me chamou para subir a Pedra da Gávea, e quando cheguei à Praça da Bandeira (grande clareira na trilha) vi uns escaladores fazendo a Passagem dos Olhos. Fiquei ali sentado, quase três horas, esperando eles descerem e pedi o endereço de um clube, e eles, apesar de serem do Carioca (Clube Excursionista Carioca), me deram o endereço do CEB (Centro Excursionista Brasileiro).

Então no início você se filiou a um clube?

Sim. A ida à Gávea foi num domingo e na segunda-feira à tarde eu já estava no CEB, mas encontrei tudo fechado. Fiquei então sentado na porta até às 7 horas, quando o clube finalmente abriu. Lá eu fiz um curso, mas fiquei no clube apenas cerca de um ano e meio, pois eu tinha o maior medo de chaminé e um guia de lá me disse que eu tinha que desistir da escalada, porque não dava para aquilo.

Falaram isso para você? (risos)

Falaram que eu era muito medroso, que não levava jeito porque tinha muito medo de chaminé (risos). Saí até chorando do clube, mas aí o Mário Arnaud soube o que aconteceu, disse que ia me mostrar uns blocos na Reserva do Grajaú e me jogou no caminho: me mostrou o Lance do Americano, o Oitavão, aí eu vivia na Reserva.

Você então passou a se dedicar ao bouldering, não? E qual a sua maior realização nesse campo?

O Olhos de Fogo, na Reserva do Grajaú. Por volta de 1985 o Marcello Ramos me mostrou o bloco, que me pareceu impossível, mas depois de muito trabalho – uns três meses tentando – consegui fazê-lo em janeiro de 86, talvez o primeiro IXa do Brasil feito por um brasileiro. Aí em 87 veio o Godoffe (Jacky Godoffe, famoso escalador francês), que quebrou uma agarra-chave no crux e eu então falei: “Agora sim ficou impossível de fazer esse bloco!”. Mesmo assim eu fiquei quase dois meses tentando muito, fiquei com a ponta dos dedos em carne viva, mas finalmente consegui fazer o lance sem a tal agarra. Antes disso o bloco não tinha nome, mas quando eu o fiz desta vez estava tão irado, com os olhos tão vermelhos, que o Marco Vidon, que estava comigo, disse: “você está com os olhos vermelhos que nem fogo; posso dar o nome de ‘Olhos de Fogo’ para o lance?”, e eu então disse que concordava.

Você foi um dos freqüentadores mais assíduos da Pedra do Urubu na época de sua maior importância, quando muitas vias, então feitas em top rope, foram equipadas e depois guiadas. Fale um pouco sobre como você vivenciou esse momento.

Ela foi um marco na minha vida, porque ali antes era um bloco que só tinha artificiais. Então eu, Serginho (Sérgio Tartari), Alexandrinho (Alexandre Portela), Marcelinho (Marcelo Braga), Poyares (Sérgio Poyares), Katinha (Kátia Ribeiro) e outros começamos a colocar top rope no Urubu Capenga, depois no Urubunda, depois no Urubu-Rei... Aí veio o Bruno (Bruno Menescal), que grampeou as vias para depois começarmos a guiá-las.

Você foi um dos primeiros escaladores a ser patrocinado e conseguir viver de escalada. Como foi isso que isso se deu?

A maioria desses patrocínios foi conseguida através do Mozart Catão, do Bruno Menescal e do Jacky Godoffe. Tinha a Au Vieux Campeur, a Boreal, a Spy – um fabricante de óculos –, a Cantão, a Montcamp...

E dava para viver de escalada?

Dava para sobreviver. Eu ganhava uma quantidade muito grande de material, que parte distribuía para os amigos e parte revendia, mas em espécie só ganhava da Montcamp.

Você nunca teve vontade de se dedicar à escalada tradicional? Como você via escaladores como Serginho e Alexandrinho?

Via como uma coisa excepcional. Eu tinha vontade, admirava, mas era muito preguiçoso (risos). Preferia aquela coisa bem light, não gostava muito de caminhar...

Alguém te serviu como fonte de inspiração?

Muitos serviram. O Serginho Tartari me ajudou e me influenciou muito, o Marcelinho também.

As primeiras competições no Brasil ocorreram quando você se encontrava em plena atividade. Você participou de muitas? Você gostava delas?

Gostava. Tinha umas pessoas que escalavam e achavam que não era legal competição, mas eu gostava de competir e cheguei a ganhar algumas.

Depois que começou a sua luta contra a doença, você continuava a pensar na escalada?

Pensava, mas eu estava muito debilitado, pois cheguei a pesar 38 quilos. Fiquei internado por três meses, depois por mais sete, mas sempre com vontade de escalar, até porque muitos escaladores foram lá me visitar, como o Hillo.

O Hillo te deu muita força, não?

O Hillo foi um amigo que me visitou quase todos os dias. Nos momentos mais difíceis, em que eu mais precisava, ele estava do meu lado, ali. Uma vez eu perguntei: “Hillo, como é que você entrou no hospital se a visita acaba às 5 horas e é uma da manhã?” Aí eu descobri que ele havia solado uma parede de tijolos na lateral do Hospital da Lagoa até o sétimo andar, com meia jaca na mochila! O Hillo conviveu muito comigo na Urca solando, solos suicidas.

Conte-nos alguns, por exemplo.

A gente solava no Urubu, nos Ácidos, no Babilônia, só com magnésio e bota pra solar, solar, solar... Num final de tarde entramos no M-2, mas quando chegamos no crux não conseguimos fazê-lo e tivemos que voltar desescalando à noite! Eu falei: “Hillo, caraca maluco, se a gente voar daqui a gente vai morrer!” O Roda-Viva também, muita loucura... Solos não muito difíceis tecnicamente, mas expostíssimos, e as botas não eram boas como as de hoje em dia... Solamos o ADN também, mas para descer foi uma encrenca... Eu gostava de solar, mas tinha um limite também. O Ácido Fórmico, por exemplo, que você conquistou, eu tentei solar, ele estava na garganta. O Serginho botou a maior pilha, mas eu ia até o crux e voltava. Eu olhei a base, calculei a queda, e o Serginho disse: “Se você cair vai se machucar, mas não muito!”. De fato, a base era plana, tinha aqueles matos, né? Ia me machucar mas não ia me danificar muito, porém a razão falou mais alto que o coração. Quando você tira a corda e o baudrier a história é outra, completamente diferente...

Alguém mais te deu apoio nos momentos mais difíceis deste período?

O Chiarelli, a Rosângela... O Caliano também me deu muito apoio: ele chegou uma vez num momento em que eu estava na cama todo sujo de fezes, sangue, cateter, tubulação e eu então falei: “Pôxa, Caliano, eu estou todo imundo aqui, tira a mão de mim”, e ele disse: “Meu irmão, tu não vai ficar assim não”, e me levantou e me limpou. Foi uma coisa que marcou a minha vida.

Exceto pela falta de visão você está bastante bem agora, felizmente. Você pensa em voltar a escalar?

Penso, mas não em rocha, porque eu até já tentei, mas não dá. Certo, nada é impossível, mas até andar na rua é complicado para mim e a rocha tem muito desnível. O que dá para escalar é em muro, porque é plano.

Soubemos que você está escrevendo um livro. Sobre o que é ele?

Sobre a minha vida, desde a minha adolescência até quando eu viver. Não é só sobre escalada, não. Quando eu morrer, o livro acaba. Estou gravando em fitas e um amigo depois vai editar.

Com base na sua experiência de escalada e de vida, que mensagem você daria para os novos escaladores?

Se você não colocar Jesus em primeiro lugar, tudo dará errado na sua vida. Pode até aparentemente dar certo, mas sempre vai ter problemas. Ele é um apoio, um alicerce. Quando você coloca Jesus no coração, você passa a ser um discípulo Dele, que era um cara humilde, simples, solidário, generoso, qualidades que um homem tem que ter, porque às vezes na vida você está de pé mas não sabe o dia de amanhã, você pode cair. E se você não tiver um alicerce forte, que é Jesus, a queda é muito grande e às vezes você não consegue mais se levantar. Veja o meu caso: se eu não estivesse agarrado a Deus, meu irmão, seria impossível eu estar alegre, aqui e agora, nessa entrevista.


Por André Ilha

Publicado na revista Headwall nº8 (nov/dez de 2003)

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