Untitled Document
 |
Jair Lourenço
"Mais difícil na primeira metade. Embora mais recente, se tornou uma escalada bastante repetida. É mais comum fazê-la em duas enfiadas.
Para quem não está familiarizado parece estranho, mas esta é a definição que você encontra no Guia de Escaladas da Urca para a via Jair Lourenço. Na verdade, o jovem de 64 anos, que dá o nome à via, desde os onze já demonstrava um certo interesse em subir nas coisas. Começou como escoteiro e logo descobriu o montanhismo e a escalada. Passando por todas as fases dessas atividades no Brasil, Jair Lourenço já pertenceu a quase todos os clubes excursionistas do Rio de Janeiro e ainda hoje desperta grande admiração de várias gerações do montanhismo, inclusive dos mais novos, que disputam o privilégio de ter o Seu Jair, como guia em uma escalada. Então vamos conhecer um pouco dos 45 anos de experiência de um montanhista que hoje, com muita saúde, ainda tem muitos desafios pela frente.
Como foi que tudo começou?
Jair Lourenço Eu devia ter uns 15 anos, morava no bairro da Saúde e estava em busca de uma atividade esportiva, queria fazer alguma coisa. Foi quando meu amigo de colégio, o Godinho, me convidou para entrar no Clube de Escoteiros da Tijuca. Entrei meio contra a vontade do meu pai, que não gostou muito da idéia. Rapidamente me entusiasmei com a nova atividade que nos proporcionava um grande aprendizado e principalmente a integração com os participantes. Inclusive, durante as excursões fui aos poucos descobrindo um espírito de liderança em mim, que naturalmente ia transmitindo muita confiança ao grupo.
Vocês faziam várias caminhadas nessa época?
Jair Lourenço Sim. Caminhadas pesadas também. Me lembro de uma excursão ao Nariz do Frade com um grupo de aproximadamente doze pessoas, passando por vários lances difíceis até chegar em uma chaminé, onde muita gente parou. Depois de muita conversa reiniciamos a subida, eu e mais três, e mesmo sem conhecimento de técnicas de chaminé conseguimos vencer aquele lance. Quando cheguei lá em cima tive vontade de gritar, tamanha era a emoção de vencer aquele desafio. Naquele dia senti que nasceu a minha paixão pela escalada.
Foi o início de vários desafios?
Jair Lourenço Daí em diante os desafios só iriam aumentar. Com pouco conhecimento técnico e procurando sempre conversar com quem já conhecia alguma coisa, eu e meu amigo Godinho reunimos alguns equipamentos, como uma corda de algodão que já estava condenada e alguns ganchos de vergalhão, que improvisavam mosquetões, e então partimos para escalar a via CEPI, no Pão de Açúcar. Foi quando o pior quase aconteceu: num determinado ponto resolvi vencer um lance de aderência que julguei ser tão fácil que nem me preocupei com o encordamento. De repente comecei a escorregar segurando a corda. Faltando poucos centímetros para o final, consegui travar a corda com toda minha força.
O que aconteceu depois?
Jair Lourenço Terminamos a escalada e voltamos para a base, onde encontramos um guia do CEPI - Centro Excursionista Pico de Itatiaia - que observava tudo lá de baixo e me deu uma bronca muito grande. Durante o sermão ele falou que dois escaladores tinham morrido há poucos dias atrás naquela via, o Valmir e o Jorge de Castro. Fiquei muito chateado com aquilo tudo e por um longo tempo perdi a vontade e a empolgação de escalar.
E como você retornou às atividades?
Jair Lourenço Refleti muito sobre tudo que aconteceu e tomei a importante decisão de entrar de sócio para um clube de montanhismo. Fui até o CEPI e preparei toda a papelada necessária. Mas ainda faltava o mais importante: a permissão do meu pai. Como eu ainda era menor, seria preciso que meu pai assinasse um termo de responsabilidade para que eu me tornasse sócio realmente. E é lógico que ele não autorizou. Naquela época escalar montanhas era considerado coisa de suicida. Mas eu estava determinado e não podia me dar por vencido. Falsifiquei a assinatura do meu pai e só assim pude ingressar no meu primeiro clube de montanhismo.

O que mudou a partir daí?
Jair Lourenço Em primeiro lugar, a consciência mudou bastante, depois fui aperfeiçoando a parte técnica. Fiz o Curso de Adestramento, que era o equivalente a um Curso Básico de hoje, e aprendi coisas que nem imaginava que um montanhista teria que saber. Utilizávamos cordas de sisal, eu usava aquelas sapatilhas china-pau, que tinham cordas no solado, e às vezes, usávamos alguns mosquetões de duas polegadas que eram conseguidos com muito custo na base do Exército em Deodoro. Qualquer material ou até mesmo literatura sobre escalada e montanhismo era muito difícil de se conseguir, a maioria vinha da Europa e poucos tinham acesso. Quando se conseguia alguma coisa, o aproveitamento era grande. Me lembro que Jorge Juarez, meu amigo, confeccionou uma cadeirinha usando cordas de um pára-quedas velho, observando o modelo de uma revista.

E seu espírito de liderança da época de escoteiro, você o manteve no montanhismo?
Jair Lourenço Como já disse, foi uma coisa natural, a cada nova caminhada ou escalada, sentia que as pessoas depositavam muita confiança em mim. Muitas vezes quando algum guia marcava uma excursão onde o ponto de encontro era no próprio local e, por algum motivo, não aparecia, todos os participantes falavam: - Não tem problema, bota o mosquito na frente e vamos lá! Sempre fui magrinho, de baixa estatura e meio tímido, mas era ágil nas montanhas, acho que foi por isso que botaram meu apelido de mosquito. Uma vez aconteceu de um guia desistir no meio de uma caminhada, pois tinha esquecido o caminho e resolveu não arriscar. Eu disse que talvez soubesse o caminho e poderia continuar até um certo ponto. O guia não aceitou e foi embora, mas todos os participantes prosseguiram comigo e chegamos no cume. No final da caminhada todos ficaram bem.
Você sempre se saiu bem nessas situações?
Jair Lourenço Graças a Deus nunca tive grandes problemas guiando os grupos, mas isso acabou causando um certo incômodo nos guias, o que levou o clube a me dar as seguintes opções: ou eu pedia meu desligamento ou eles iriam me expulsar do clube. Tentei argumentar dizendo que se eu saísse muitas pessoas iriam sair também, mas não adiantou. Então, não tive escolha, pedi meu desligamento e logo em seguida, para infelicidade do clube, não deu outra, vários sócios também pediram desligamento em solidariedade a mim.
Depois você passou por outros clubes...
Jair Lourenço Sim, passei por vários, e em todos os clubes que passei sempre tive bons relacionamentos. Isso me ajudou muito na troca de experiências com os montanhistas no decorrer do tempo. O senso de colaboração era muito grande e sempre fiz boas amizades. Participei de várias conquistas e numa delas, André Guerra, Luis Lopes e Francisco Caetano sugeriram meu nome para batizar àquela que é, até hoje, uma das vias mais repetidas da face norte do Morro da Urca. Fiquei muito emocionado com a homenagem.
E qual foi a emoção mais forte durante todo esse tempo?
Jair Lourenço O montanhismo tem me proporcionado várias emoções, uma delas eu guardo com orgulho e um carinho muito especial. Foi quando fui escalar pela primeira vez uma certa montanha na Serra dos Órgãos... depois de passarmos a noite no antigo Abrigo quatro, levantamos cedo e, num determinado ponto, quando caminhávamos pelo Morro do São Pedro, o guia pediu para todos sentarem numa pedra. Na frente havia uma montanha coberta por nuvens que iam passando lentamente; aos poucos meus olhos foram se abrindo cada vez mais, e fui me surpreendendo ao ver bem de perto, na minha frente, a Agulha do Diabo. Quando todas as nuvens passaram, no meio daquele enorme silêncio perguntei: - nós vamos mesmo subir até lá em cima? E subimos. Foi muito gratificante conseguir escalar aquela montanha.
E hoje, você ainda mantém suas atividades?
Jair Lourenço Continuo escalando normalmente. Há pouco tempo participei do início de uma conquista no Morro Tijuca Mirim, parece que ainda não deram nome para a via, outro dia fiz o Lagartão na face sul do Pão de Açúcar. Apesar de ter chegado bem, senti que está na hora de começar a diminuir o ritmo. Atualmente escalo algumas vias que considero bem técnicas e quando estou meio rígido, stressado, faço algumas caminhadas para limpar a mente e trocar energia com a Natureza.
Qual a maior lição que você aprendeu nas montanhas?
Jair Lourenço Foram tantas, mas acho que o mais importante é essa troca de energia, que nos dá saúde, equilíbrio e força para enfrentarmos a batalha do dia-a-dia. Por isso, estou certo de que devemos defender a educação e conscientização das pessoas para a conservação de nossos ambientes naturais. É preciso que haja uma integração entre as entidades envolvidas e a sociedade, sempre visando atingir o mesmo objetivo. Ao invés de proibir, é melhor investir em educação. Precisamos valorizar as iniciativas consideradas domésticas, que na maioria das vezes parecem pequenas mas, que integradas, podem gerar grandes resultados. Assim, acho que estaremos colaborando para que as futuras gerações também possam vir a trocar com as montanhas a energia que precisamos para viver bem. ::
|
| + Entrevistas ... |
Tadeusz Hollup
Um dia o Epaminondas Leotsisnis, do CEC, me deu uma olhada e disse: Você vai ser um bom escalador, vamos fazer umas ...
|
 |
Flavio Carneiro
Aos sete anos ele entrou para a natação, competiu até os treze e depois descobriu o mergulho. Estudou Biologia e ...
|
 |
Luciano Bender
Guia de Petrópolis aposta no ineditismo.
Lançado no dia 4 de junho, o livro Guia de Escaladas de Petrópolis ...
|
 |
Paulo Macaco
Figura fácil de ser encontrada na Pedra do Urubu e arredores nos anos 80 e 90, Paulo Bastos, o Paulo Macaco, foi um ...
|
 |
Bernardo Collares
Bernardo Collares é presidente da FEMERJ - Federação de Esportes de Montanha do Estado do Rio de Janeiro, ...
|
 |
Lucas Tejero
Montanhista há mais de 20 anos, em janeiro de 1998, incentivado por Mozart Catão, partiu para sua primeira expedição em ...
|
 |
Patricia Duffles
Determinada a não ouvir mais as desculpas de sua irmã mais velha, que insistia em não levá-la para as caminhadas, ...
|
 |
Rosane Camargo
Montanhista apaixonada pelo Rio de Janeiro, Rosane Camargo tem um carinho muito especial pela Urca, o que a levou a ...
|
 |
Marina Silva
... se formos fazer as coisas para o povo brasileiro nós seremos derrotados, mas se fizermos as mudanças para e com ...
|
 |

|
|
|
|
 |
|
|
|

|
 |
Cintia Adriane
Pico da Tijuca
O Parque Nacional da Floresta da Tijuca abriga a maior floresta urbana do mundo. E como não poderia deixar de ser, nela pode-se encontrar numerosas trilhas interessantíssimas para se conhecer.
|
Daniel Guimarães
Você sabe o que é um BigWall?
Não há nenhuma definição específica que qualifique uma parede como um big wall, mas como o termo já diz, tem que ser uma parede grande, preferencialmente fendada e negativa.
|
Lucas Tejero
Huayna Potossi
Ainda nos meus primeiros passos dentro deste mundo fascinante, que é o alpinismo em alta montanha, eu já ouvia falar que se alguém quisesse conhecer este esporte deveria começar pelas montanhas da Bolívia.
|
Mariana Candeia
O Caráter Sedutor do Escalador
Fruto de um e-mail enviado pelo Antônio Paulo Faria à lista da FEMERJ onde ele explanava, juntamente com a porcentagem de escaladoras no país, comentários sobre aspectos que envolvem as conquistas amorosas entre escaladores, surgiu em mim o interesse em além de responder o e-mail adicionando informações do âmbito da psicologia, investigar mais o tema que parece ser bem interessante. Este é um tema curioso na medida em que, de uma forma geral, as questões de ordem sexuais são fundamentais e estão em lugar de destaque na nossa vida pessoal.
|
Pedro Bugim
Escalando a Grande Leste
Tudo estava preparado. A mochila, o croqui, as provisões, a equipe. Contudo, após uma noite particularmente fria e mal dormida, acordei bastante soturno e às 5:30h, após colocar minha cabeça para fora da barraca, sentia-me imensamente indisposto para a empreitada que me aguardava.
|
|
|
|
|