Untitled Document
 |
Flavio Carneiro
Aos sete anos ele entrou para a natação, competiu até os treze e depois descobriu o mergulho. Estudou Biologia e trabalhou na área da Biologia Marinha. Tinha tudo para ser um profissional ligado ao mar, mas um amigo lhe apresentou a escalada e a partir daí tudo mudou. Muito jovem, começou a se misturar com escaladores de uma técnica muito apurada e desenvolveu seu próprio estilo, influenciado por amigos que vem cultivando ao longo do tempo. O envolvimento com o montanhismo cresceu e foi ficando cada vez mais sério. Passou a trabalhar em atividades que sempre envolviam técnicas de escalada, até criar, junto com Eduardo Barão, o Centro de Escalada Limite Vertical, onde ele está, literalmente, em casa. Um dos fundadores da AGUIPERJ, Flavio Carneiro é hoje membro da diretoria da FEMERJ e importante profissional da montanha.
Como foi que você passou da água para a montanha?
Flavio Carneiro - Por volta de 1986, quando eu praticava mergulho, encontrei um grande amigo, o Marc. No meio da conversa falei que estava mergulhando e ele achou interessante; ele me falou que estava escalando e eu também me interessei. Ficamos muito empolgados com as atividades de cada um naquele momento. Então combinamos: - você me leva para escalar que eu te levo para mergulhar! O Marc me emprestou o material de escalada do primo dele e fomos para os coloridos, na Urca. Naquele dia eu já fiquei amarradão! Depois tive que levá-lo para mergulhar. No final da história os papeis se inverteram: hoje eu sou profissional da montanha e ele se tornou Dive Master.
Ele foi o seu grande mestre?
Flavio Carneiro Sim, mas além do Marc, sofri influência de um outro amigo nosso, de Petrópolis, o Erike Nissens, que tinha uma excelente técnica e foi um grande escalador na década de 80 e início de 90, tendo feito várias conquistas no Estado do Rio de Janeiro. Revendo um pouco essa época, acho que a técnica que desenvolvi tem muito dessas pessoas, com quem aprendi bastante. O Erike, por exemplo, tinha um posicionamento incrível. Desde que comecei a escalar, sempre fui orientado por eles a não segurar nos grampos. E isso já acontecia bem antes da publicação do Manifesto de Escalada Livre, feito por André Ilha, que destaca a importância de não utilizar os pontos de apoio artificiais numa escalada.
E quantos anos você tinha?
Flavio Carneiro - Eu tinha 16 anos. Naquela época, qualquer folga eu ia para Urca. Às vezes deixava de fazer os programas com a turma da minha rua para ir escalar. Isso me dava a fama de maluco entre os colegas. O meu negócio era ir para as montanhas. Foi quando recebi um ultimato da minha mãe: ou você entra para um clube de montanhismo ou eu não vou deixar mais você escalar. Eu até achei uma atitude sensata da parte dela, pelo risco que envolve o esporte. Então entrei para o CERJ Clube Excursionista do Rio de Janeiro, que era o clube que mais crescia naquele momento.
A partir daí você pode dizer que iniciou oficialmente no montanhismo?
Flavio Carneiro Sim, inclusive minha mãe me deu muita força, ajudando a comprar equipamentos. Naquele período, era muito difícil encontrar material bom. Quando comprei meus primeiros mosquetões, esperei um mês e meio até recebê-los. Só existia a Montanha, que era a loja do Chicão, e mesmo assim, a maioria do material era de camping. Até tinha um baudrier nacional, que ele mesmo fazia. Me lembro que eu tinha uma corda que foi utilizada por mais de oito anos. Ela tinha 30 metros e era uma tortura na hora de fazer o rapel. Mas no fundo, acabava sendo legal, pois as dificuldades eram superadas pelas parcerias que se formavam entre as pessoas. Você chegava na Urca e todo mundo se cumprimentava, todos escaladores se conheciam. É claro que não eram tantos quanto são hoje.
Como foi sua experiência no clube?
Flavio Carneiro - Quando entrei para o CERJ, as pessoas já tinham um certo respeito por mim. Me escrevi no curso básico, mas o diretor me avaliou acima da média. Então acabei colaborando para o curso, guiando em algumas aulas práticas. E para não perder o costume, eu sempre chamava a atenção dos alunos: Não bota a mão no grampo! Freqüentei o CERJ até 1990, escalei mais um ano independente e aos poucos fui parando. Em 1992 estava cursando Faculdade de Biologia. Isso passou a tomar muito o meu tempo e foi me causando um certo desinteresse pelas escaladas. Passei a objetivar outras coisas e comecei a trabalhar na área da Biologia Marinha, me dedicando muito mais as atividades da Faculdade.
Você então ficou um tempo sem escalar?
Flavio Carneiro Fiquei. Mas em 1995 reencontrei um velho amigo que não via há algum tempo. Ele me deu muita força para voltar a escalar, insistiu muito, me elogiou, falou que eu deveria voltar, enfim... acabou me convencendo. Fomos direto para o K2, no Corcovado e, apesar de naquele dia ter passado alguns venenos, me convenci que não poderia mais ficar longe das montanhas. Era isso que eu realmente gostava.
E quando iniciou sua carreira profissional?
Flavio Carneiro - Depois de algum tempo que voltei a escalar, um amigo me falou que estava ganhando um dinheirinho trabalhando como guia, levando algumas pessoas para as montanhas, e me chamou para trabalhar com ele. Mas, na verdade, só comecei a me profissionalizar a partir de 1997, quando encontrei o Marcos Madeira, grande escalador que tinha uma firma chamada Jardins Suspensos, que fazia tratamento e poda de árvores utilizando técnicas de escalada. Eu ficava o tempo todo manuseando equipamentos, tendo que definir vários sistemas e procedimentos seguros para resolver as diversas situações que surgiam: içamentos, sistemas de roldanas, jumariar e etc. Foi quando eu conheci o Eduardo Barão.
E aí criaram o Limite Vertical?
Flavio Carneiro Ainda não. Continuamos trabalhando juntos na Jardins Suspensos e surgiu uma oportunidade para darmos aula em uma escola de alpinismo chamada Cabeça Verde, que era do Marco Vidom, um dos donos da Jardins Suspensos. Ficamos lá até o dia em que realizamos um determinado trabalho e eles não agiram conforme o combinado. Então saímos da escola, e conseqüentemente... nos desligaram da Jardins Suspensos.
Ficaram desempregados?
Flavio Carneiro Ficamos. Nós precisávamos trabalhar e, naquela altura, já estávamos muito envolvidos com o esporte. Foi aí que resolvemos fundar o Limite Vertical, há uns quatro anos atrás.
E como foi?
Flavio Carneiro Começamos no quarto do Barão, onde tinha um computador que usávamos para escrever apostilas e confeccionar panfletos para divulgação. Um amigo meu de infância criou o logotipo. No início éramos Escola de Alpinismo Limite Vertical, mas por motivos burocráticos exigidos pelo MEC, mudamos para Centro de Escalada Limite Vertical. Eu morava aqui nessa casa com minha mãe, onde existia um quartinho vazio. Então eu falei para ela que iria montar um escritório. Ela aceitou e... mãos a obra: lixamos, pintamos e arrumamos tudo. Um dia, um grande amigo meu, o Guilherme, perguntou: Por que vocês não constroem um muro de escalada? No dia seguinte ele chegou com quinhentos reais e disse: aqui está minha contribuição para o muro. Aquilo nos deu um grande incentivo e começamos a juntar dinheiro. Fizemos um grande trabalho que nos possibilitou construir a primeira versão do muro, que era um pouco diferente do que é hoje. Depois minha mãe foi morar com minha irmã e eu fiquei com a casa.
Foi aí que vocês passaram a funcionar comercialmente?
Flavio Carneiro Até então, nós só dávamos aula, depois surgiu a necessidade de ampliar o Centro. Iniciamos uma reforma, a fim de montar uma estrutura ideal para atender nossas atividades, que cresciam cada vez mais. Ampliamos o muro, criamos uma nova sala de aula e há pouco tempo fizemos um barzinho. Cada vez mais nós estamos investindo nesse sonho, que é viver do esporte, ser profissional da montanha. Às vezes, quando estou no meio de uma escalada, o celular toca e depois de alguns minutos de conversa, eu acabo fechando um negócio na montanha.
Quais são as principais atividades do Centro?
Flavio Carneiro Trabalhamos como guias, levando pessoas para as montanhas; ministramos diversos cursos; prestamos acessoria técnica em filmagens que utilizam técnicas de escalada; coordenamos as atividades de altura com uma equipe chamada Calefação, e ainda trabalhamos como dublês em programas de TV, novelas, até mesmo no Sítio do Pica-Pau Amarelo, onde uma simples cena de alguém subindo em uma árvore requer segurança. O nosso objetivo principal é o desenvolvimento do esporte de forma segura e consciente, oferecendo guiadas, promovendo cursos e palestras. Criamos, recentemente, um projeto chamado Espaço Vertical, aberto para montanhistas e profissionais da área, que queiram mostrar seus trabalhos. Com isso, acredito que estamos contribuindo para melhorar o nível de conhecimento das pessoas e, conseqüentemente, aumentar a ética no montanhismo.
Como surgiu a AGUIPERJ?
Flavio Carneiro Na década de 80 o profissional da montanha era chamado de Prostituto da Montanha, não existia respeito. Diante disso é que nós sentimos a necessidade de nos organizar. Foi quando reunirmos os profissionais do Rio de Janeiro aqui no Limite Vertical. Escrevemos um estatuto e toda semana promovíamos um debate em torno dele. Até que chegamos num consenso e finalmente estava criada a AGUIPERJ - Associação de Guias, Instrutores e Profissionais de Escalada do Estado do Rio de Janeiro. Hoje a AGUIPERJ é afiliada à FEMERJ Federação de Esportes de Montanha do Estado do Rio de Janeiro e seu carro chefe é a segurança.
E qual é o principal papel da AGUIPERJ?
Flavio Carneiro Preparar o profissional para qualquer situação de risco, visando a melhoria constante da segurança, de forma preventiva. Na verdade, o importante não é só escalar bem e guiar bem, o profissional precisa mais que isso, ele tem que se desenvolver constantemente e nós contribuímos para isso, ministrando cursos eletivos como: Aprendizagem Motora, Primeiros Socorros, Auto Resgate, Didática, Geologia e Direito Ambiental, entre outros.
A Associação está obtendo sucesso?
Flavio Carneiro Hoje nós temos quase todos os bons profissionais do Rio como associados. E para garantir esse resultado, é bom destacar também o nosso alinhamento com a FEMERJ, que vem realizando um excelente trabalho através do seu presidente, Bernardo Collares, e todos seus colaboradores, que participam com muita competência, como voluntários. Tem a Rosane Camargo, com o SOS Urca; o Sávio e o Nóbile, fazendo o reflorestamento do Costão do Pão de Açúcar; e outros que merecem todo nosso respeito e admiração. É cansativo e estressante como outro trabalho qualquer, até porque ninguém está ganhando dinheiro para limpar trilha, capinar, fazer reflorestamento, catar lixo, escrever estatuto, etc. Mas tem sua recompensa, que é a organização do esporte. Com isso todos ganham: eu ganho, você ganha e o Meio Ambiente ganha.
Você como ator importante nesse cenário, o que acha dos vários assuntos polêmicos que freqüentemente surgem no meio?
Flavio Carneiro Nós, como entidade de montanhismo no Rio, estamos abertos para discutir qualquer assunto relacionado com a atividade. As reuniões da FEMERJ, por exemplo, são abertas, qualquer pessoa pode participar e contribuir de alguma forma. Ficar do lado de fora jogando pedra na vidraça, ao invés de apresentar boas idéias para serem discutidas... não é uma atitude correta.
É preciso assumir uma postura de colaboração, participação...
Flavio Carneiro Sim... é muito desagradável você fazer uma caminhada, por exemplo, e encontrar lixo nas trilhas, pessoas gritando, acampando em lugares proibidos, com som alto, fazendo fogueira, enfim, todo esse comportamento condenável que temos que combater. Não podemos ficar perdendo tempo com discusões que não levam a nada.
Atualmente, como você tem visto o papel dos clubes?
Flavio Carneiro O que eu tenho percebido é que cinqüenta ou sessenta por cento dos montanhistas são independentes, não são filiados a nenhum clube ou entidade relacionada à montanha. É preciso que os clubes percebam essa tendência e procurem se modernizar, a fim de acompanhar o crescimento acelerado do montanhismo no Brasil.
Você acha que o Limite Vertical está se tornando uma referência no Rio?
Flavio Carneiro Bem, nós costumamos dizer que aqui é um lugar neutro. São pessoas independentes, de vários clubes, amigos que vêm aqui trocar idéias sobre montanhismo, se divertir, tomar uma cervejinha, conhecer outras pessoas, e não só para fazer aula ou assistir palestras. Eu fico feliz e acho que essa integração contribui muito para a evolução do esporte. A AGUIPERJ nasceu aqui, a FEMERJ realiza várias atividades aqui, e a cada dia, o Centro vem ganhando o respeito dos montanhistas.
Fale um pouco de seus projetos e conquistas.
Flavio Carneiro O grande projeto é realizar conquistas nas ilhas do Brasil. Atualmente já conquistamos na Ilha Redonda (as vias Virgem do Atlântico, Tobá Cabeção e A Ver Navios) e outras na Ilha de Cabo Frio, em Arraial do Cabo, que considero um dos melhores lugares de escalada em fenda do Brasil. Esse é um projeto que estamos realizando juntos, eu e o Barão. Aliás, vale ressaltar que é muito bom ter o Barão como parceiro. Ele é um grande conquistador, já conquistou uma das vias mais difíceis do Rio de Janeiro, que é a Ordem e Progresso (A4), no Corcovado. Quanto as conquistas, acredito que eu já repeti setenta por cento das vias na Urca e atualmente estou abrindo uma via, com o Daniel Guimarães, de Teresópolis, no Corte do Cantagalo. Também tenho participado de outras conquistas com amigos, como o André Ilha e o Bernardo. O mais importante é que estamos evoluindo juntos, em prol do montanhismo, e sempre respeitando o Meio Ambiente. ::
|
| + Entrevistas ... |
Tadeusz Hollup
Um dia o Epaminondas Leotsisnis, do CEC, me deu uma olhada e disse: Você vai ser um bom escalador, vamos fazer umas ...
|
 |
Luciano Bender
Guia de Petrópolis aposta no ineditismo.
Lançado no dia 4 de junho, o livro Guia de Escaladas de Petrópolis ...
|
 |
Jair Lourenço
"Mais difícil na primeira metade. Embora mais recente, se tornou uma escalada bastante repetida. É mais comum fazê-la ...
|
 |
Paulo Macaco
Figura fácil de ser encontrada na Pedra do Urubu e arredores nos anos 80 e 90, Paulo Bastos, o Paulo Macaco, foi um ...
|
 |
Bernardo Collares
Bernardo Collares é presidente da FEMERJ - Federação de Esportes de Montanha do Estado do Rio de Janeiro, ...
|
 |
Lucas Tejero
Montanhista há mais de 20 anos, em janeiro de 1998, incentivado por Mozart Catão, partiu para sua primeira expedição em ...
|
 |
Patricia Duffles
Determinada a não ouvir mais as desculpas de sua irmã mais velha, que insistia em não levá-la para as caminhadas, ...
|
 |
Rosane Camargo
Montanhista apaixonada pelo Rio de Janeiro, Rosane Camargo tem um carinho muito especial pela Urca, o que a levou a ...
|
 |
Marina Silva
... se formos fazer as coisas para o povo brasileiro nós seremos derrotados, mas se fizermos as mudanças para e com ...
|
 |

|
|
|